domingo, janeiro 25, 2009

Livros de viagem: sim ou não

Pois é, estou quase na Tailândia. É um pouco surreal mas é verdade. Estou de rastos, farta de jantares, almoços e copos de despedida, odeio caixas e malas mas de resto está tudo bem. Tratei de enviar a maioria dos livros em inglês para a escola, ao menos lá terei muito que ler em inglês. Entretanto ando a tentar escolher que livros portugueses é que levo. Têm de ser interessantes, bons, apelantes etc porque vou carregá-los até ao fim do mundo e não os posso deixar lá, afinal de contas o pessoal lá não percebe.

As hipóteses são:

  • Em nome da terra, Vergílio Ferreira. Apesar da minha já mencionada febre V.Ferreira nunca li este livro. Vantagens: tamanho e velocidade de leitura. Desvantagens: será que estou pronta para recomeçar com V. Ferreira? Parei após não sei quantos livros seguidos, se calhar era um sinal.
  • O ano da morte de Ricardo Reis, José Saramago. Vantagens: adorei o Memorial e não tenho problemas com a pontuação/escrita dos modernistas, antes pelo contrário. Desvantagens: a edição não é das melhores e não sei se sobreviverá ao suor. Consegue-se ler Saramago desbotado?
  • Doze contos peregrinos, Gabriel Garcia Marquéz. Vantagens: Saber que ainda só não gostei de um livro de Garcia Marquéz (claro que foi o primeiro). São 12 contos, posso ir lendo e serão 12 histórias diferentes. Desvantagens: os últimos três livros de G.M. que li, voaram muito depressa. Preciso de livros para um ano todo.
  • As aventuras de João Sem Medo, José Gomes Ferreira. Vantagens: ser de um dos meus autores preferidos e um dos meus livros preferidos. O formato livro de bolso. Desvantagens: entusiasmar-me com a história e achar que devo partilhá-la com os meus futuros alunos e ficar maluca com a tradução. Não queremos nenhum momento Kurtz na selva, certo?
  • A viagem do elefante, José Saramago. Vantagens: a vontade de o ler desde que soube a história. Desvantagens: Implicaria não levar o outro volume de Saramago?
  • Margarita e o Mestre, Bulgakov. Vantagens: Outro favorito pessoal, anima qualquer neura. Formato capa dura ajuda nas viagens. Desvantagens: Já o li, má edição que poderá borrar com o calor tropical. Pode alterar o meu sentido de humor num país simpático mas suscéptivel.
  • O arranca-corações, Boris Vian. Quase que coloquei este livro num altar e dei por mim a possuir várias cópias (já corrigi o erro). Vantagens: adoro. Desvantagens: adoro.
  • O livro do dessassossego, Bernardo Soares/Fernando Pessoa. Comecei a lê-lo na faculdade mas tive de o devolver antes de o terminar. Vantagens: um marco na literatura, tanto serve para poesia, filosofia como para romance. Já comecei a ler e estava a gostar. Desvantagens: o tamanho e o formato anti-viagem. Se bem que deve ser óptimo para matar baratas tropicais. Eu odeio baratas.

Já agora, caso estejam curiosos, os livros em inglés que devo levar são:

  • His dark materials, Phillip Pullman.
  • A fraction of the whole, Steve Toltz.
  • This is your brain on music, Daniel Levitin.
  • Rough guide to Thailand.
  • Rough guide to travel survival. Ensina a matar baratas tropicais.
  • Lonely Planet's guide to South-East Asia on a shoestring.

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terça-feira, janeiro 20, 2009

Leitura criminosa

Lê-se muito mais depressa do que eu esperava. Acho que o meu lado sádico esperava mais detalhes ou razões mas o livro "apenas" compila justificações de vários assassinos. De vez em quando há uma ilustração. De vez em quando soltei uma gargalhada no metro, em troca recebi olhares. Se fosse uma personagem do livro os olhares teriam sido mortos à facada ou algo assim. Eis alguns exemplos:

"ERRATA Onde se lê: Matei-a porque era minha. Leia-se: Matei-a porque não era minha."

"Negou ter-me pedido emprestado o quarto volume... Um buraco nas costelas, como aquele na prateleira."

"Foi por pura teimosia. Não custava nada para ele ter feito. Que não, não e não. Vocês não podem imaginar. Há gente assim. Mas quanto menos houver, melhor."

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quarta-feira, janeiro 14, 2009

Especial Banda Desenhada parte 7

Hoje não há quarta-feira em Bruxelas, muito simplesmente por falta de tempo. Mas há este especial BD que estava na fase "rascunho" há semanas e que espero que compense.

Obra completa, Sempé. Não consigo escolher só um livro mas posso sugerir alguns como Rien n'est simple, Comme par hasard, Luxe, calme et volupté, Insondables mystères. Sempé é mais conhecido pela série O menino Nicolau mas as suas ilustrações encantam-me há anos. Na minha humilde opinião poucos (ou mesmo ninguém) iguala o traço ora humorístico ora maroto ora irónico de Sempé. As suas ilustrações conseguem ter o valor de uma anedota bem contada ou de uma história partilhada com amigos. Ainda estou para descobrir alguém que com tão pouco numa página consiga espelhar a infância e as diferenças caricatas entre crianças e o modo destas verem o mundo dos adultos. Para todos com sentido de humor e ironia e para quem quer (re)lembrar-se da infância. Para o filho que diz que ninguém o compreende.

Fables: legends in exile, Bill Willingham & Ian Medina. Imaginem que as personagens dos contos de fadas fossem reais e vivissem exiladas no nosso mundo. Imaginem o Lobo Mau como um detective privado que tem de conter o mau feitio de forma a não revelar o seu lado lobisomem, a Branca de Neve após um divórcio litigioso com o Príncipe Encantado (um engatatão de primeira) e o Monstro e a Bela em sessões de terapia conjugal. Tudo isto bem msturado a um homicídio nas barbas de toda a gente. Uma leitura envolvente e surpreendente. Para quem gosta de contos de fadas, para quem acha que é demasiado velho para contos de fadas.

Jacques Delwitte: Little White Jack, Max de Radiguès. Uma obra belga para variar. Um guitarrista genial anda pela rua a tocar a troco de moedas, é chamado para ajudar uma banda nova com o novo disco e os flashbacks ajudam-nos a descobrir uma carreira bem sucessida e as razões do fim da carreira. Um desenho pastoso que se destaca do traço imediato da maioria das obras actuais. Jacques é inspirado num músico de rua de Bruxelas, contudo a história é fictícia. Para gosta de música de rua, de desafios e de BDs com desenho diferente.

Je t'ai aimé comme on aime les cons (original: Te quise como sólo se quiere a los cabrones), Giménez & Fonollosa. Após o fim de uma relação, longe de ser perfeita, e após quatro anos longe da cidade natal, Miranda é obrigada a regressar a casa dos pais. Como lidar com uma mãe que parece mais destroçada do que ela, com as amigas mais do que dispostas a dizer mal do ex (mais do que Miranda até) e com as memórias boas e más da relação? Como acabar uma relação e manter o sentido de humor também era um título que funcionava. Não digo para irem já a correr oferecer um a alguém que esteja a sair de uma relação mas é para quem ao menos já namorou alguém e hoje se pergunta porquê.

Too cool to be forgotten, Alex Robinson. Se me dissessem que iria regressar ao liceu por tempo indeterminado garanto-vos que iria entrar em pânico. Pois Alex foi apenas fazer hipnose para deixar de fumar, acontece que a génese do problema, do seu vício estava precisamente no liceu. Como é que um homem de 40 anos reage ao ser enfiado para dentro do corpo de um adolescente magricela, com aparelho e borbulhas? Ainda por cima sem aviso prévio. Enquanto enfrenta medos e rufias passados o leitor tem direito a rir dos anos 80. Para quem conhece os liceus (anos 80 ou não) e não tem particularmente vontade de lá voltar.

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domingo, janeiro 11, 2009

Leitura de morte

Há meses li algures uma crítica sobre este livro e anotei o título num dos meus cadernos. Não sabia que iria demorar meses a encontrar o livro (na Madeira) nem que mal chegasse a Bruxelas o iria encontrar na versão original e com desconto. (Mas estou contente por voltar a ler em português.) Por ter passado tanto tempo não me lembro exactamente o que li que me fez querer ler o livro. Posso garantir-vos que de certeza que não tinha lido algo como "vais chorar pelo menos quatro vezes".

A rapariga que roubava livros, the book thief, vale muito a pena a leitura mas após meses de espera deixou-me com uma ligeira sensação de que a montanha pariu um rato. Não sou grande fã de histórias cuja acção decorre numa das grandes guerras, sou um bocado demasiado maricas para dizer a verdade. Contudo a contra-capa avisava-me. Digamos que a ideia de ter a Morte como narradora pareceu-me inovadora e interessante (e foi) e gosto da ideia de uma rapariga que rouba livros.

Eu não estava era a contar com uma rapariga que sofre como uma desalmada junto a personagens que sofrem desalmadamente ou que fazem sofrer. Sempre que a rapariga roubava um livro e o lia o livro parecia ganhar outro alento. As descrições da narradora por vezes pareceram-me um pouco forçadas. A vida das personagens principais rodeou-me completamente, daí o chorar quatro vezes.

Uma vez disse a um escritor português que não tinha gostado do seu livro mas que o dito cujo me tinha feito chorar e que um livro que nos movia era um livro importante. Ou algo assim, já não sei bem. Devia ter ficado calada, até devo ter ofendido o homem... Embora tenha gostado do livro não gostei de tanto sofrimento e dor. Se bem que há partes hilariantes. Leiam se puderem mas se forem tão maricas como eu sugiro verem um filme da Pixar depois.

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sexta-feira, janeiro 09, 2009

Há dias...

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quinta-feira, janeiro 08, 2009

Camaradas

"Comunismo e Nacionalismo em Portugal abre com uma história curiosa contada por André Malraux: durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), nas proximidades de Toledo, abate-se sob as tropas republicanas mais um punhado de bombas do céu que, ao contrário de tantas outras, desta vez não explodem. Surpreendidos, os republicanos descobrem-lhes no dorso uma mensagem em português – «camarada, esta bomba não explodirá» – indiciando a sabotagem dos engenhos algures na passagem de Portugal para Espanha. " Daqui.

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sexta-feira, dezembro 12, 2008

A fraction of the whole

Há dias apercebi-me de duas coisas:

1) da quantidade de folhas com citações de livros que tenho pelo apartamento (e se calhar mais em Portugal), chego a encher uma caixa(!)

2) que não costumo partilhar as ditas frases. Eis algumas do A fraction of the whole:

A ver se me esforço por melhorar o segundo ponto:

"We were lazy people on an adventure, flirting with life but too shy to go all the way."P.6

"(...) when you put that much effort to forget someone, the effort becomes a memory."P.9

"People don't understand me(...) it's sometimes irritating because they think they do."P.22

"(...) Anyone who says a friend of theirs hasn't changed in years just can't tell a mask from an actual face." P.23

"I feel like I took a wrong turn but went so far down the road I didn't have the energy to turn back.(...) It's never too late to turn back if you make a wrong turn. Even if it takes you a decade to backtrack, you must do it. Don't get stuck because the road back seems too long or too dark. Don't be afraid to have nothing." P.210

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quinta-feira, dezembro 11, 2008

Leitura "brilharete"

Citando o Bibliotecário de Babel (com quem concordo quando diz que A fraction of the whole devia ter ganho o Booker prize deste ano e não o The white tiger):

"A Fraction of the Whole, de Steve Toltz, é um romance ambicioso, divertido, complexo, caótico, filosófico, inventivo, transgressor, labiríntico, aforístico, quilométrico, quase sempre exasperantemente bom, às vezes genial. (...)

(...) um deslumbrante tour de force: caótico, filosófico, labiríntico, divertidíssimo e sem o mínimo sentido das proporções. Ao longo das suas 710 páginas, acompanhamos a complexa relação de Jasper Dean com o seu pai, Martin, e deste com o seu irmão, Terry (um criminoso que se torna o homem mais idolatrado da Austrália (...)). No caso desta obra, qualquer tentativa de sinopse é vã, tantas são as linhas narrativas e os «livros dentro do livro» com que Toltz vai criando um universo proliferante e agónico, em que as tragédias se sucedem e cada uma consegue ser pior do que a anterior. Ostensivamente talentoso, capaz de oscilar entre a melancolia e o sarcasmo num décimo de segundo, Toltz tem uma concepção épica da literatura, como se esta fosse um lugar onde tudo pode ainda acontecer. Se tivesse feito parte do júri, era em The Fraction of the Whole que eu votaria."Do Diário do Booker.

Posso apenas dizer-vos que não me lembro de ter ficado tão impressionada com uma obra de estreia como fiquei com A Fraction of the whole. Toltz quase que escreve demasiado bem (o palerma) e ora puxa de filósofos em quem não pensava há anos ou abana tudo com histórias de personagens que davam outros livros. Mesmo o fim do livro deixa-nos com a sensação que poderia continuar o brilharete por mais 700 páginas, ou se calhar eu é que queria continuar. Para resistir à tentação de o ler uma segunda vez ainda hoje comecei a reler o The seekers de Daniel J. Boorstin e vou encomendar A Sane Society de Erich Fromm (é referido por uma das personagens). Espero que esta não seja uma "one hit wonder" e se há candidatos a escritores por aí recomendo a lição de humildade.

Podem ler as primeiras páginas de A fraction of the whole aqui.

Amanhã partilho algumas frases/citações do livro.

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segunda-feira, dezembro 08, 2008

Dedicatória

I can recite to you

the exact whereabouts

of my soul

before we met.

it was a rather tedious place.

Eric Simmons.

Mais fotos aqui.

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quinta-feira, dezembro 04, 2008

Leitura pescadinha de rabo na boca

"The future influences the present just as much as the past." Friedrich Nietzsche

Temo que se disser que o livro lembrou-me imenso de Nietzsche que ninguém o vá ler, deixem-me dissuadir-vos: se não lerem vou até Portugal e mato o vosso cão ou gato com um único tiro de espingarda. Não? ok... Descansem, o livro não é nada deprimente ou pesado apesar das várias influências e temas.

Uma história dentro de uma história dentro de uma história...

The stones gods é a primeira obra de Jeanette Winterson que leio. O nome da escritora está fortemente ligado ao Oranges are not the only fruit de 1983, a história de uma jovem que se apaixona por uma rapariga ao mesmo tempo que os seus pais a preparam para a enviar como missionária de Deus, e por isso acho que ninguém esperava uma incursão pela ficção-científica/ fantástico/existencialismo e análise político-social.

A obra de 246 páginas está dividida em três partes, sendo a primeira a mais extensa e crucial e atrevo-me a dizer a que poderia ser um livro. Como detesto spoilers vou falar apenas dessa parte.

Após guerras ridículas, ataques terroristas, poluição desmesurada e consumismo extremo o mundo ocidental entrou em crise, não há planeta para todos, o fim aproxima-se a grande velocidade. Nem tudo é mau no planeta vermelho, apesar de haver tanta poluição e radiotividade que não é possível sobreviver muito mais há conforto:"R is for Robot. There's Kitchenhand for the chores, Flying Feet to run errands or play football with the kids. (...) . There's Land-a-hand too, for the temporarily unpartnered. We have Robo-paws, the perfect pet - depending on your definition of perfect. We have TourBots, for hire when you visit a new place and need someone to show you around. We have bottom of the range LoBots, who have no feet because they spend all their time on their knees cleaning up. "P.17 As pessoas podem escolher uma idade e através de modificação genética ficar com o corpo dessa idade até morrerem. Há cidades cheias de mulheres de 24 anos e homens de 34.

Eis que um novo planeta é descoberto. Um planeta azul. Billie é enviada numa das primeiras naves juntamente com Spike, uma robot sapiens, uma robot infinitamente sábio e extremamente atraente. Durante a viagem ouve falar do planeta branco, tudo indica que no planeta branco viveram humanos ou pelo menos, humanóides. O planeta de Billie e Spike é agora o planeta vermelho devido a toda à poluição, a toda à destruição. Há tempestades de areia vermelha, criadas pelo excesso de dióxido de carbono. Durante a viagem há discussões sobre a definição do ser humano com a robot Spike a argumentar brilhantemente e de certa forma a ganhar visto que acaba por se envolver com Billie.

O planeta azul não é propriamente território virgem. Há imensa vegetação, água abundante, nenhuma poluição, e, dinossauros. (É aqui que o leitor mais distraído exclama um belo: "espera aí....") Para viver no planeta azul há que eliminar os dinossauros surge então o Capitão Handsome e desvia um asteróide na direcção do planeta. A ideia é causar estragos apenas às criaturas gigantescas, esperar que morram e voltar com uma empresa de construcção civil. Contudo o asteroide tinha outros planos, aterra mais cedo no planeta e com outras coordenadas. O Capitão Handsome acaba de condenar o planeta azul a uma longa idade do gelo...

"Perhaps the universe is a memory of our mistakes. And I shouldn't blame it all on us: there must be planets that are their own mistakes - stories that began and faltered. Stories that ended long before they should."P.106

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sexta-feira, novembro 28, 2008

Leitura premiada

Não costumo seguir prémios e afins, contudo este ano graças ao Bibliotecário de Babel segui mais ou menos os prémios Man Booker e o Goncourt. O Bibliotecário de Babel tentou ler os finalistas todos e dar a sua opinião antes do anúncio do vencedor. Dos seis finalistas ficou pela página 180 do sexto livro, o que na minha opinião é muito impressionante. (pouco depois fez o mesmo para o prémio Goncourt)Mas como estava a dizer, não costumo comprar livros por causa de prémios, mas admito que é uma forma interessante de um livro ou escritor ficar conhecido. Só soube da existência do The White Tiger quando a lista de finalistas foi anunciada e a livraria inglesa ao pé do meu trabalho fez um destaque. Fiquei curiosa para folhear o derrotado A Fraction of the Whole, de Steve Toltz mas como hoje não o encontrei começo pelo vencedor. Os outros não me chamaram. Quem sabe mais para a frente. Afinal de contas tive o Naif. Super. na minha prateleira dois anos até me decidir a lê-lo e devorei-o em três dias. Isto com os livros nunca se sabe. Também comprei o The Stone Gods de Jeanette Winterson e o Revolutionary Road de Richard Yates (que espero ler antes de o filme estreiar). Encomendei o Apollo's song do grande Tezuka e o Jupiter's travels de Ted Simon. Numa altura em que me preparo para mudar de país devia ter mais juízo e pensar nas minhas costas a carregarem caixas repletas de livros mas enfim...

Quanto ao The White Tiger ainda não sei muito, ainda só vou na página 30. O protagonista, um empresário indiano, escreve ao primeiro-ministro chinês e conta-lhe a sua história. Como ponto de partida usa um poster usado para o descrever e às suas origens. Parece ser um poster de "procura-se criminoso". Em pequenos detalhes menciona aqui e ali os contrastes indianos: rico e pobre, mau e bom, grande e pequeno etc

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quinta-feira, novembro 27, 2008

leitura indiana

Li-o há duas semanas mas esqueci-me de mencionar. Em contrapartida escrevi imenso sobre o livro no blog inglês. Este fim de semana termino tudo e dou-vos a morada.

Quem quiser saber como foi na Índia, só tem de ler os primeiros capítulos de Holy Cow! e lembrar-se que não sofri tanto como a autora.

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terça-feira, novembro 25, 2008

Leitura nórdica

«A minha vida tem sido estranha nos últimos tempos. Chegou a um ponto em que perdi o interesse por tudo.» Naif. Super., Erlend Loe, P.13
Aos vinte e cinco anos o protagonista tem uma crise existencial. Acabou o curso e não sabe o que fazer a seguir. Perde um jogo com o irmão e desata a chorar. Durante dois meses fica sozinho na casa do irmão a fazer listas, a enviar faxes a um amigo distante, a andar de bicicleta, a construir castelos de areia com o filho de um vizinho, a ler partes de um livro sobre o tempo e a martelar numa tábua de martelar. Sabe que em tempos teve entusiasmo pelas coisas, por alguma coisa. E apesar do tema o livro não parece ter limites para as piadas e comentários irónicos.
Este livrinho cheio de ironia e sarcasmo deve muito ao Catcher in the rye. Para quem acha que a literatura norueguesa é toda séria e importante como o Knut Hamsen, talvez este (tradução portuguesa disponível) livro não seja uma má introdução.

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sábado, novembro 15, 2008

Poça

". . . imagine a puddle waking up one morning and thinking, 'This is an interesting world I find myself in, an interesting hole I find myself in, fits me rather neatly, doesn't it? In fact it fits me staggeringly well, must have been made to have me in it!' This is such a powerful idea that as the sun rises in the sky and the air heats up and as, gradually, the puddle gets smaller and smaller, it's still frantically hanging on to the notion that everything's going to be alright, because this world was meant to have him in it, was built to have him in it; so the moment he disappears catches him rather by surprise. I think this may be something we need to be on the watch out for." Douglas Adams.

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quinta-feira, novembro 13, 2008

Especial Banda Desenhada - parte 6 - dose dupla

Nem sei como é que deixei passar tanto tempo desde o meu último especial... Espero compensar o desleixo nos próximos tempos. Hoje o especial é dedicado a artistas com duas ou mais obras que adoro e eu não soube escolher só um para o especial. O especial contém igualmente três grandes mestres cujo trabalho marcou e mudou a história da BD.

Buddha, Osamu Tezuka. (8 volumes). Não deixem que o tamanho desta obra épica vos assuste, vale cada página. Tezuka é tão importante para a história das mangas e da banda desenhada como o Walt Disney é importante na história da animação. Trouxe características "manga" como os olhos enormes e as expressões de espanto para uma história supostamente sisuda como a vida de Buddha e influenciou entre outros Stanley Kubrick e Maurício de Sousa (sim, o da Mônica). Buddha é uma obra inesperada e surpreendente, mostra ao mesmo tempo o crescimento e desenvolvimento da vida e santidade de Buddha ao mesmo tempo que relata a violência e a sexualidade de outras personagens. Há muitos ângulos inesperados (para uma BD) e no fim ficamos com a ideia de que vimos um filme, um biopic da vida de Buddha e de personagens contemporâneas fictícias. É uma excelenente forma de mostrar o budismo e a sua doctrina pondo-a em contexto sendo ao mesmo tempo uma BD que custa a parar de ler. Para fãs de: Budismo ou curiosos, Astro-Boy, de mangas (embora este se leia na ordem ocidental), da série Tom Sawyer de Miyazaki.

A Contract with God e New York, Will Eisner. Um preferido pessoal. Tenho adiado falar nesta obra por achar que merecia mais destaque mas o tempo foi escasso. Will Einer foi mais importante do que eu sei explicar, hoje há os prémios Will Eisner nos Estados Unidos, os Oscars da BD. A contract with God foi uma das primeiras graphic novels, romance gráfico. Sem este livrinho muita BD de hoje em dia não existiria. Houve graphic novels antes mas nenhuma desta qualidade. É uma colecção de contos cuja acção se desenrola no mesmo bairro, a maioria dos habitantes são judeus emigrados nos Estados Unidos e entre os seus problemas pessoais a BD lida com a sua integração na sociedade americana e com as dificuldades das gerações seguintes. O desenho é muito realista embora em momentos de crises as personagens se tornem caricaturas delas mesmas ou se encolham ou afundam de formas pouco naturais que fazem o leitor querer dar-lhes um abraço. New york é uma antologia de vários volumes sobre a vida na grande cidade, sobre New York, desenhos de pessoas com demasiada pressa para viver, da vida dura de um emigrante no pós-guerra etc O volume Invisible people por exemplo lembrou-me de quando cheguei a Lisboa pela primeira vez. Dois dias depois tinha comprado quase toda a obra de Eisner. Para fãs de: Dostoevsky, Craig Armstrong, Maus: A survivor's tale, Kurt Vonnegut, Michael Chabon, José Carlos Fernandes.

Fraise et chocolat (2 volumes) e Je ne verrai pas Okinawa, Aurélia Aurita. Fraise et chocolat é quase um clássico de culto francês, facto que me manteve afastada do livro durante dois anos, até que recentemente descobri o Je ne verrai pas Okinawa... Aurita desenha com lápis fino de uma forma tão corriqueira que por um momento pensamos ser fácil desenhar. Tem o dom de fazer com que cada página pareça ter sido desenhada no autocarro, mas quando olhamos uma segunda vez apercebemo-nos que aquilo deve ter dado imenso trabalho. Fraise et chocolat relata as aventuras amorosas e sexuais de um casal francês no Japão. Os detalhes sexuais são muito explícitos e cómicos, não há detalhes Hollywoodescos de como tudo é perfeito à luz das velas e o primeiro volume é talvez a melhor descrição dos primeiros meses de uma relação sexual que já vi. O segundo volume acompanha uma relação mais madura mas ainda muito sexual assim como uma tournée BD e outros detalhes culturais do Japão. Os livros têm um sentido de humor muito apetitoso. Je ne verrai pas Okinawa é quase todo passado no aeroporto de Tokyo e ilustra de forma genial as dificuldades burocráticas de entrar num dos países mais fechados do mundo, o Japão. Apesar da autora ter dinheiro, de receber direitos de autor e de não ser uma ameaça para os trabalhadores japoneses as autoridades proibem-na de ficar os três meses que o visto permitia. Aurita tinha planeado visitar Okinawa nessa visita... É um relato dos tempos em que vivemos. Podem ver páginas de amostra aqui. Para fãs de: Small Favors, Milo Manara, nouvelle manga, Anais Nin, Tatsumi.

Elle(s) e Hollywood San (com Michael Sanlaville), Bastien Vives. Se algum dia fizer um especial sobre BDs para jovens este "miúdo" terá lugar de destaque. Digo miúdo porque é mais novo do que eu, o estúpido. Elle(s) segue um jovem de 26 anos que sem saber bem como, vê-se no meio de duas jovens de dezoito anos e das suas aventuras, desventuras e dos seus namorados também. Há sms, festas, cinema, amizades...Quem acha que está desligado das novas gerações pode aproveitar a leitura fácil. Hollywood Jan relata a história de um adolescente franzino, Jan (/ian/), que sofre como muitos de nós sofremos no liceu. Há rufias, professores arrogantes, colegas cruéis e o Jan sente-se invisível. E ainda por cima uma das professoras é amiga da mãe (também me aconteceu...) Para o ajudar há (I kid you not) o Arnold Schwarzenegger, o Sylvester Stalone e o Russell Crowe. Com a sua imaginação mortal e sedutora, o jovem Jan ora imagina conversas com os miúdos populares ora o Arnold a matar o pessoal todo. Mas e aquele hábito de pensar em voz alta?... Para fãs de: Wonder Years, Coupling, Le combat ordinaire. Parece-me especialmente indicado para leitores jovens (quer de idade ou mentalmente).

Abandon the old in Tokio, The push man e Good-bye, Yoshihiro Tatsumi - Já cá falei no senhor mas as únicas três obras traduzidas merecem mais destaque. Exactamente, o grande mestre japonês só tem três obras traduzidas no ocidente. É uma vergonha. Se há obra que nos faz abrir os olhos e apercebermo-nos que o Japão é um país longe dos estereótipos, com problemas como o nosso, com pessoas traumatizadas com o pós-guerra, com pessoas deprimidas, com gente que não gosta do trabalho, com filhos que não querem ser responsáveis pelos pais, com mulheres chatas, com homens ansiosos por ver pornografia num país altamente censurado, pessoas à beira de um esgotamento porque a vida não é nada do que tinham sonhado quando era novos etc são estes livrinhos. Qualquer história de Tatsumi permite-nos ao mesmo tempo sentir pena dos japoneses, desdém por personagens humanas (mas) cruéis, permite-nos descortinar um pouco as pressões de uma sociedade com uma hierarquia muito complicada e antever muitos esgotamentos. Temos sempre a sensação que estamos a desvendar um segredo muito bem guardado, que o Japão não são só gueixas, samurais, templos e ordem... Para fãs de:Dostoevsky, Aki Shimazaki, Osamu Tezuka, Coco Wang, Orhan Pamuk,para ver o Japão com outros olhos.

Où le regard ne porte pas...(2 volumes), George Abolin e Olivier Pont. Em 1906 a família de William troca Londres por uma vila italiana, os italianos não ficam muito satisfeitos e há uma tensão no ar. Mas para quatro miúdos de dez anos, isso não tem importância. Entre as aventuras dos petizes e as confusões dos adultos há sonhos, memórias de outros tempos, as crianças parecem lembrar-se todas dos mesmos acontecimentos. De outra vida? O segundo volume passa-se vinte anos depois, há vinte anos que os quatro protagonistas não se viam, há o matar saudades habitual, um ajustar de contas e uma viagem à Costa Rica para procurar o quarto rapaz. Entretanto os sonhos, visões são cada vez mais fortes e parecem ser pistas para o paradeiro do rapaz. Para fãs de: mistérios, Brian Weiss, BDs de época.

Especiais anteriores: Especial 5. Especial 4. Especial 4.5. Especial 3. Especial 2. Especial 1.

Especial BD online 1 e 2.

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terça-feira, novembro 11, 2008

Leitura do momento

Por algum motivo estranho ou simbólico o In Patagonia está esgotado assim como o What am I doing here?.

Anatomy of restlessness era o terceiro na minha lista de livros de Bruce Chatwin mas acabou por ser o primeiro. O livro apresenta uma série de inéditos: ensaios, contos, estórias, relatos e crítica literária, é até uma boa introdução à obra de Chatwin porque podemos absorver diferentes géneros contudo alguns textos dão a sensação de estarem inacabados.

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quinta-feira, novembro 06, 2008

As queixas de George Orwell

Nem tudo correu bem quando viveu na Birmânia:

"In Moulmein, in lower Burma, I was hated by large numbers of people—the only time in my life that I have been important enough for this to happen to me.

In the end the sneering yellow faces of young men that met me everywhere, the insults hooted after me when I was at a safe distance, got badly on my nerves. The young Buddhist priests were the worst of all.

Theoretically—and secretly, of course—I was all for the Burmese and all against their oppressors, the British. As for the job I was doing, I hated it more bitterly than I can perhaps make clear. In a job like that you see the dirty work of Empire at close quarters. The wretched prisoners huddling in the stinking cages of the lock-ups, the grey, cowed faces of the long-term convicts, the scarred buttocks of the men who had been flogged with bamboos—all these oppressed me with an intolerable sense of guilt.

I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. He becomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of his rule that he shall spend his life in trying to impress the “natives,” and so in every crisis he has got to do what the “natives” expect of him.

And my whole life, every white man’s life in the East, was one long struggle not to be laughed at."

O texto está disponível online.

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quarta-feira, outubro 29, 2008

A eficiência Jeová

Há dias além da publicidade habitual tinha um envelope sem remetente com um enigmático S. Barbara Rodrigues. Confirmei que era má pessoa porque imediatamente olhei em volta à procura de suspeitos. Se a Maggie ainda cá estivesse nem teria aberto com medo de uma carta-bomba. Enquanto abria a porta fui abrindo o envelope, quase certa que era coisa da Leen. Fechei a porta e tirei um panfleto colorido d' As testemunhas de Jeová em português.

Vou voltar a explicar. Eu recebi em Bruxelas - cujas línguas oficiais são o francês e o neerlandês - um panfleto religioso das testemunhas de Jeová em português de Portugal. Os mesmos panfletos que me faziam atravessar a rua quando os via na mão de uma velhinha sorridente (outro sinal de alarme).

Depois do ataque de riso que tive nas escadas (não acho que tenha sido coincidência ouvir alguém a trancar a porta) tentei adivinhar o sistema do distribuidor. Será que tem uma amostra em cada língua? Vê o "s" em vez de um "z" então mete um em português em vez de espanhol? E por que não português do Brazil? Conhecem as estatísticas demográficas de cada freguesia? Ou cada zona tem uma pessoa responsável pela divulgação religiosa como no Masters of Atlantis ? No meu prédio há portugueses (não sou a única), alemães, belgas, iranianos e uma outra nacionalidade que ainda não identifiquei, será que cada recebeu um panfleto na língua materna? Será que há um Hélder à espera para ser convidado a entrar só cinco minutos?

Há coisas que não me deixam dormir.

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segunda-feira, outubro 27, 2008

Descobertas

Descobri blogues/sites novos, partilho cheia de amor:

Soul sides. - Um audioblog dedicado à música soul e r&b. Belas surpresas.

Mozart - Archiv - Arquivo (audio) completo da música de Mozart. O site é um pouco confuso e está maiortariamente em alemão e inglês mas não é de navegação impossível.

Bookbrunch - ideal para não ficarem atrás das novidades editoriais, livrescas e afins. Há um blog e notícias para além do site principal.

BiblioFilmes - muitos trailers para livros.

Papel en blanco - blogue em castelhano sobre as novidades e notícias livrescas. Em relação à literatura espanhola e latino-americana está bem actualizado.

Pó dos livros - blogue da livraria pó dos livros (que infelizmente abriu depois de ter emigrado), quem não conhece dou uma pista: Bulhosa... Tem citações de livros para abrir o apetite, se nunca sabem o que ler podem ir espreitando o blogue.

Em breve juntar-se-ão à minha família de links. Sugerem mais alguma coisa?

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sábado, outubro 25, 2008

O fim de um livro

Normalmente mataria quem me revelasse o fim de um livro ou conto mas há algum tempo a American Book Review decidiu fazer uma lista das melhoras frases finais de livros. Nada como listas destas para vermos o mundão de livros que ainda não lemos, ou há quanto tempo lemos este ou aquele. Um dos livros já nem me lembrava de ter lido, que desgraça...

Alguns exemplos:

3. So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past. –F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby (1925)

37. P.S. Sorry I forgot to give you the mayonnaise. –Richard Brautigan, Trout Fishing in America (1967)

40. Oedipa settled back, to await the crying of lot 49. –Thomas Pynchon, The Crying of Lot 49 (1965)

45. Are there any questions? –Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale (1986)

A lista aqui.

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