quarta-feira, outubro 29, 2008

A eficiência Jeová

Há dias além da publicidade habitual tinha um envelope sem remetente com um enigmático S. Barbara Rodrigues. Confirmei que era má pessoa porque imediatamente olhei em volta à procura de suspeitos. Se a Maggie ainda cá estivesse nem teria aberto com medo de uma carta-bomba. Enquanto abria a porta fui abrindo o envelope, quase certa que era coisa da Leen. Fechei a porta e tirei um panfleto colorido d' As testemunhas de Jeová em português.

Vou voltar a explicar. Eu recebi em Bruxelas - cujas línguas oficiais são o francês e o neerlandês - um panfleto religioso das testemunhas de Jeová em português de Portugal. Os mesmos panfletos que me faziam atravessar a rua quando os via na mão de uma velhinha sorridente (outro sinal de alarme).

Depois do ataque de riso que tive nas escadas (não acho que tenha sido coincidência ouvir alguém a trancar a porta) tentei adivinhar o sistema do distribuidor. Será que tem uma amostra em cada língua? Vê o "s" em vez de um "z" então mete um em português em vez de espanhol? E por que não português do Brazil? Conhecem as estatísticas demográficas de cada freguesia? Ou cada zona tem uma pessoa responsável pela divulgação religiosa como no Masters of Atlantis ? No meu prédio há portugueses (não sou a única), alemães, belgas, iranianos e uma outra nacionalidade que ainda não identifiquei, será que cada recebeu um panfleto na língua materna? Será que há um Hélder à espera para ser convidado a entrar só cinco minutos?

Há coisas que não me deixam dormir.

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domingo, maio 04, 2008

Leitura atlântica

Resumindo muito mal há um livro escrito praticamente em código repleto de cones, triângulos e símbolos, uma sociedade secreta com raízes em Atlântida, um soldado americano da primeira grande guerra que não sabe se foi roubado ou elucidado e um inglês que se esforça demasiado com uma irmã feia mas tenaz.

Uma das frases que mais uso para descrever o Boris Vian resume-se a prever que no futuro não voltarão a ler algo como "aquilo" e no segundo capítulo do Masters of Atlantis já pensava assim de Charles Portis, embora os dois escritores não sejam, de todo, comparáveis.

Ainda não sei se o livro é pura insanidade, alegoria ou crítica mordaz com todos os seus estudiosos obcecados, leitores que vêem sinais a cada frase mas que nunca chegam a acordo sobre o seu significado e com membros da ordem de Atlântida a querer levar a informação (a mesma sobre a qual ninguém tem a certeza) ao povo americano de qualquer forma possível: anúncios no jornal, entrevistas na rádio... Uma ideia já seguida pela cientologia que oferece massagens na feira do livro.

As personagens de Portis são cómicas de tão genuínas com um bêbado Popper a convencer o Grande Mestre a concorrer para o senado americano, o criado negro a fingir ser analfabeto com sotaque do sul quando lhe convém e com a inocência digna de um professor de arqueologia do mestre a ser levado por toda a gente ou a agarrar-se a uma promessa de filho pródigo. Todos têm a sua interpretação do livro secreto mesmo os que não o leram, nesse aspecto acredito que Portis poderia escrever sobre o que quisesse que seria levado a sério de tão realista.

Posso emprestar a minha cópia.

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