segunda-feira, novembro 17, 2008
segunda-feira, novembro 05, 2007
Bolinhas: a união faz a força
Há dias perguntaram-me se havia mais portugueses na empresa. Claro que há. De certeza que há um Santos, um Silva, uma Mendes, uma Baptista escondido/a no meio da maquinaria das empresas multinacionais a picar o ponto como qualquer Smith, Frampton e Robinson.
Existe um fenómeno que me escapa. Ok, existem vários fenómenos que não compreendo mas neste momento preocupa-me uma certa união de estranhos que tenho testemunhado ao longo destes dois anos pela Europa fora. Gostaria mesmo muito de saber se existe um radar ou algo do género que faz com que uma nacionalidade encontre a mesma nacionalidade num edifício de 700 pessoas, por exemplo.
Os ingleses (ingleses, não os britânicos) parecem sempre reconhecer-se a milhas e pior, preferir a presença de outros ingleses a pessoas com as quais poderiam ter muito mais que falar. Os flamengos parecem cheirar à distância se determinado franciú é francês ou belga enquanto que eu mesmo depois de saber a nacionalidade continuo só a distinguir o francês de um e do outro através de uma ou outra expressão e só depois estar bem acordada (depois do almoço normalmente). Os franceses e os espanhóis também parecem padecer do mesmo mal. E não nos iludamos que os portugueses não são muito diferentes, aqui o Petit Portugal mais parece uma edição longa do Ponto de encontro.
Faz-me lembrar quando tinha sete ou oito anos e brincava com a sopa, costumava entreter-me a unir as bolinhas de gordura com a colher; uma unia-se à outra sucessivamente até formarem uma bola enorme. Nunca fizeram isso?
Talvez no dia em que me disseram que não se fazia isso à mesa tenha perdido o radar, não sei. Só sei que os únicos portugueses que conheço cá são os senhores do restaurante que me mata as saudades de vez em quando; desconfio que não sabem como me chamo.
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sexta-feira, abril 06, 2007
São tão lindos!
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terça-feira, março 27, 2007
Não sei como é que os diplomatas o fazem (suspiro de emigrante)
Está cada vez mais difícil defender ou explicar (e perceber) Portugal. Lamento generalizar e tal e detesto soar como uma emigrante mas que raio?.... Quando foi o terrorismo do aborto argumentei que era a posição da igreja e tudo o que o Sumo Pontífice dissesse seria repetido pelo Patriarca de Lisboa e bispos afins - excepto se calhar o do Funchal que tem a reputação que tem - mas agora vota-se num ditador e ainda por cima um mau ditador como o melhor português de todos os tempos? Saudosismo é sinónimo de estupidez desde quando? Eventualmente a desculpa de que as pessoas saem de Portugal para procurar uma vida melhor vai dar lugar a uma realidade incómoda: a de que muitos procuram um país melhor. Eu procurei uma mentalidade melhor e gostava de ter mais do que o futebol e o tempo (e até isso está a mudar) como exemplos positivos. Mas não há crise afinal de contas nos Estados Unidos num concurso semelhante o Homer Simpson foi o grande vencedor, se calhar isto tudo foi uma piada de mau gosto. ufa!....
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segunda-feira, fevereiro 12, 2007
A revolução do telecomando
Através do blog O diplomata descobri esta maravilha:
"O Presidente Cavaco Silva, em declarações na Academia Portuguesa de Medicina, alertou para a “necessidade de legislação e procedimentos administrativos claros, não só sobre o tabagismo, mas no combate ao consumo excessivo de álcool, obesidade e estilos de vidas sedentários.” Nesta frase existem duas ideias que combinadas são potencialmente perturbadoras: “Necessidade de legislar” e “estilos de vidas”.
Ou no meu caso de passar horas em frente ao computador, de querer dormir durante a tarde ou de me deitar na relva a curtir o sol quentinho da primavera (primavera portuguesa). Na Austrália, por exemplo, para além das aulas de educação física todas as manhãs os miúdos têm 20m de exercício. Embora não ache que seja saudável ser sedentário ou rotineiro a mim quer-me parecer que pessoas adultas devem decidir o que fazer com as suas vidas. Se isso implica que não jante durante 3 semanas ou que coma três vezes mais do que o recomendado para o meu corpo, desde que esteja informada sobre os riscos, o que é que o presidente EM QUEM EU NUNCA VOTARIA tem a ver com isso? Se escolho ir todos os dias comer hamburgueres com batata frita ou ficar em casa em vez de ir caminha a minha meia hora diária recomendada a escolha é minha, as consequências também - moro no 3º andar com escada manhosas. Pode ser só o meu mau feitio mas detesto que me digam como viver a minha vida. E em vez de perder tempo a querer ser boa pessoa que tal tratar da corrupção nos serviços portugueses? Ou do serviço de saúde? Ou da vozinha irritante?
Quem alinha em ir beber uns copos anti-sistema e ver dvds no sofá?
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domingo, janeiro 14, 2007
A eterna preguiça de mudar (deambulações de emigrante)
Assumo finalmente o meu papel de emigrante. Não faço a mínima quando serão as férias de regresso à terra, tenho saudades do frango dos restauradores, dos amigos (sim, vêm depois do frango), do calorzinho, de passeios à beira-mar, de perceber o que se passa e de não me preocupar com as diferenças culturais, afinal de contas, se, ou melhor, quando faço asneiras assumem imediatamente que é uma asneira portuguesa e que há choque de culturas enquanto que eu ainda estou a decidir se o meu interlocutor é burro ou se o meu francês está mais podre do que pensava.
Como boa emigrante que sou, gosto muito do meu país mas tenho dificuldade em percebê-lo. Quero intervir e no entanto quando vivia aí muitas vezes estive-me nas tintas. Porquê? Bem, porque já estava dentro do comboio... Estava minimamente bem informada - sempre muito mal se comparar com os meus tios - mas não estava a fazer qualquer diferença (talvez ao provocar discussões na faculdade?).
Após sete meses na Letónia, digo, no fim do mundo, percebi como é complicado querer integrar-se, quebrar o código linguístico e cultural, fazer amigos, sair da casca etc e ao mesmo tempo não querer ou poder cortar com a raiz, porque a raiz é parte integral do que somos ou do que julgamos ser. Pela primeira vez na vida era a única portuguesa. A única. Sou a única portuguesa que centenas de pessoas conheceram pessoalmente. As minhas acções e piadas eram automaticamente assumidas como portuguesas e para meu horror como típicas. Eu nunca fui típica em toda a minha vida. (começam a perceber porque bebi tanto quando lá estive?) O meu choque com o resultado das eleições presidenciais (choque, não surpresa) acelerou o processo de querer perceber, participar, mudar e reclamar.
Ando a esforçar-me por perceber a discussão (ou ausência dela) sobre o referendo do aborto, por decifrar a TLEBS, por compreender a política portuguesa para ao menos conseguir responder às perguntas dos meus colegas belgas ao mesmo tempo que tento perceber as minhas contas belgas, o que raio é que ando a descontar e o IRS belga, que estatuto tenho agora que estou registada (votar é obrigatório aqui e até agora não encontrei um consenso sobre quanto tempo depois de estar registada é que tenho de cumprir o meu dever), perceber os "wallons" e os flamengos e todas as pequenas idiossincrasias de que nunca me tinha apercebido até sair do meu país.
Isto tudo e mais alguma confusão à mistura para dizer que não é preciso ter medo das mudanças. As mais assustadoras costumam ser as melhores. O hábito de sentar-mo-nos à sombra da bananeira e reclamar em voz alta, especialmente durante o telejornal, é muito giro e pitoresco mas é desperdício de energia. Um dia acordam e estão velhos e confusos a bradar aos céus que no nosso tempo as coisas eram diferentes. Mas este é o nosso tempo, esta é a nossa vida. Está a passar muito depressa enquanto temos medo de ver o que há pela frente ou enquanto reclamamos com o estado das coisas. Estamos perdidos dentro de nós mesmos, sim. Mas porque "queremos". Claro que podemos reclamar, eu adoro mandar vir com o mundo contudo, nunca ninguém nos disse que ia ser fácil. Então aqui estou eu, uma eterna maricas a abraçar a mudança, dar o passo em frente, arriscar, pontapé no rabo e tudo isso - Olé! Gostava de poder votar no referendo porque aos poucos a coisa avança. Não, não perdi o meu cinismo e pessimismo, simplesmente uni-os a uma vontade de ferro de quem sobreviveu a micróbios comunistas e um hospital letão.
Após isto vou dormir porque ainda não recuperei da minha integração de sexta à noite. Acho que não vos contei que decidi experimentar todas, mas todas, as cervejas belgas. Não na mesma noite, claro, são cerca de 600, livra! A minha contagem vai em 12. É como vos digo, isto é aos poucos.
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segunda-feira, janeiro 08, 2007
O parágrafo que fez rir a emigrante em mim
"Parece que, nos últimos tempos - um ano, salvo seja - setenta ou oitenta ou cem mil almas desertaram do país e foram para o estrangeiro procurar melhor modo de vida. Trata- -se de bastante gente a decidir arriscar a pele e procurar melhor vida noutras paragens. O governo, naturalmente, achará que é uma traição por parte desses cidadãos que se recusam a testemunhar as luminosas etapas do crescimento português e as grandes reformas estruturais. O próprio eng.º João Cravinho já partiu. Felicitemo-lo."
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quinta-feira, setembro 07, 2006
venham a Portugal as criancinhas
Logo a seguir a sair do aeroporto fui almoçar/lanchar com a minha mana e no restaurante reparei primeiro, que estava mesmo cheia de fome e depois num bebé minúsculo, amostra de gente, que estava num carrinho ao lado da nossa mesa. O carrinho ainda o fazia parecer mais pequenino e indefeso. Claro que os pais olharam para mim com um ar suspeito e intimidante... Só me deu vontade de ir fazer cócegas na barriga do puto ao som de "bilú, bilú, bilú..." mas a minha irmã é conhecida no bairro e era chato. E sendo a grande vergonha da família a nacionalidade e cultura da minha irmã tratei logo de lhe explicar que em Portugal o petiz já teria sido alvo de muitos comentários com voz (quase) de cartoon, que lhe teriam pegado num pézinho exalando muitos "óóóoooo", que até o adolescente mais envergonhado por estar num café perto da escola com a mãe comentaria enfadado: "é demasiado pequenino para estar num café cheio de fumo e barulho." e que muitas avózinhas ou pretendentes ao cargo lhe teriam analisados todos os dedinhos com sorrisos científicos e sábios para depois afirmarem sérias e embevecidas : "são tão pequeninos."
A minha mana respondeu-me muito séria, em jeito de aviso como se temesse o meu próximo passo, que na Bélgica não tocamos nas crianças dos outros (referia-se a estranhos) e depois de uma pausa acrescentou "não sem autorização dos pais". Horas depois, noutro restaurante com o meu cunhado, discutia-se com o chéf e o chefe de sala as idiosincrasias da mafia chinesa (calma, calma, juro que há uma ligação) e a minha irmã debita entre cabeças acenando afirmativamente que os chineses não são muito afectivos com as suas crianças e que estas precisam de muito mimo e atenção.
Eu por começar a temer o vinho que me subia à cabeça fiquei caladinha mas pensei muitas coisas!... e das mais decentes foi que faz falta um livro sobre como os povos se vêem e como olham o resto do mundo porque no final do dia é tudo muito relativo. Por esta hora deve estar a minha amiga Ana (que nos nossos dias do secundário dizia sempre que podia "isso é tudo muito relativo!") a caminho do hospital para a sua cesariana, em breve teremos um belo espécime latino de nome Bernardo e meu deus como aquelas bochechas serão apertadas na altura certa...

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